O bicho-da-seda é a larva de uma mariposa. Quando nasce mede cerca de 2,5 mm de comprimento. Durante 42 dias alimenta-se sem parar, de folhas de amoreira e sofre quatro metamorfoses.
Quando atinge o tamanho de 5cm, começa então a tecer um casulo branco e brilhante, composto por um único fio. Com um movimento geométrico infinito, em torno de seu próprio corpo, após três dias de trabalho, estará envolta em um casulo confeccionado por um fio de aproximadamente 1200 metros. Se for deixada em paz... Em 12 dias se transformará numa borboleta.
Com esses fios, há quase três décadas, ando tecendo a minha história. Por um desejo simples, desprovido de maiores intenções, eis aqui um espaço onde me proponho a compartilhar minha trajetória e falar livremente sobre todo tipo de arte, incluindo a arte de viver.
Bem-vindos ao meu mundo, onde nem tudo é sempre colorido, transparente, leve, mas que guarda em si, todas essas possibilidades...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O Chamado


Rosane Queiroz nas dunas - foto Iara Venanzi

A idéia descabelada de eu ter um blog, nasceu na cabeça da Rosane Queiroz, editora de comportamento da revista Marie Claire, também autora de dois blogs, o Garotas de segunda (que é coisa de primeira) e o Miojo ( que é uma delícia). Como eu, ela é tão chegada numa conversa de botequim, que o marido até tem um e como ele também é meu amigo, não vai se importar por eu tratar assim, o charmozérrimo Che Bar de Paraty, onde num fim de noite, já na porta a sair, ela questionou sobre a certeza da profissão.
Naquela ocasião, pelo adiantado da hora, dei uma resposta curta. Depois ela abriu esse questionamento no Miojo ("O chamado") onde deixei um breve comentário, mas penso que o assunto merece mais. Agora eu tenho esse espaço e se você tem tempo...
Uma escolha que deveria ser natural acaba por ser uma das decisões mais angustiantes que uma pessoa tem que tomar. Uma aflição comum aos jovens vestibulandos que acaba se estendendo a veteranos e até a profissionais bem colocados no mercado de trabalho. Os testes vocacionais podem auxiliar nessa escolha, mas eu nunca vi um resultado que garantisse sucesso e felicidade pra ninguém. Parece que descobrir nossa vocação não basta, às vezes até complica mais, porque ninguém vem ao mundo com apenas uma. Esses testes poderiam antes de revelar aptidões, conduzir o indivíduo a criar uma lista de motivos. Sem saber por que e para que, uma pessoa quer ser alguma coisa, fica difícil descobrir que coisa é essa. Elaborar essa ordem de valores implica em coragem, honestidade e respeito consigo mesmo. Isso admito, não é tarefa fácil, visto que somos influenciados pelo capitalismo, que cria a todo o momento "necessidades", para depois satisfazê-las. Que somos uma civilização do imediato, em que só fomos treinados para valorizar os resultados e nunca os processos. Alem disso nos perdemos entre duas crenças opostas e igualmente distorcidas: Por um lado, uma cultura antiga que evoca o dever e depois, bem depois, o prazer. Se não tiver prazer, não tem problema, contanto que cumpra o dever, ou seja: desvincula trabalho, de satisfação, para associá-lo a sofrimento e ainda incute a idéia de que isso enobrece o homem. Por outro lado há uma massa que nega isso tudo e que se alimenta do que é fácil, esperto, lucrativo ou rápido. Os primeiros passam a vida arrastando correntes sem saber ao certo, se sentem orgulho ou pena de si mesmos. Os outros passam a vida tentando encontrar um jeito de conseguir mais dinheiro e de se aposentar mais cedo pra depois não fazer mais nada. Eu também fui vítima de uma dessas mentiras. A imensa culpa que sentia pelo prazer que as tintas me proporcionavam, enquanto minha mãe amargava e exauria à beira de um tacho de doce, me impediu por muito tempo, de pendurar o meu nome na placa. Levei anos para entender a arte como minha profissão (ainda que não passasse nem um dia sem um traço) e outros tantos para ser minimamente entendida.
Aos que encontram um caminho de satisfação, sucesso e certeza, resta então a justificativa do destino, do privilégio, da sorte? Não creio! Não pode ser assim! Não posso acreditar que as possibilidades foram sorteadas ou que uma pequena minoria, que porventura tenha feito algo que agradou profundamente a Deus, tenha sido chamada a ocupar cargos de felicidade.Creio que vocação vem de outros domínios... Mas a escolha é responsabilidade nossa e precisa ser correspondente à escala de valores de cada um. No meu caso, foi a clareza dos meus desejos e motivos o que definiu meu caminho. Ansiava um trabalho que tivesse um grande diferencial, algo muito especializado. Algo que me desse imenso prazer e senso de realização.Uma profissão que me ajudasse evoluir espiritualmente. Claro, havia outros motivos que ao longo do tempo foram trocando de posição na escala e até caindo fora. Porém o que era essencial sempre esteve no topo. Costumo dizer que eu não tenho a arte, ela é que me tem e não me larga e que vim ao mundo para pintar seda. Mas isso é apenas uma forma de dizer que estou entregue no caminho que eu escolhi. O que me orienta não é a arte ou a pintura em seda. O que me orienta antes de tudo, é a coerência entre o motivo, a arte e a seda. Tendo uma escala de valores e para as artes plásticas, vocação evidente, não foi difícil reconhecer o silêncio e a solidão de um atelier, como ambiente propício para a para minha evolução. Também não é de se surpreender que uma pessoa com as minhas pretensões tivesse inventado de pintar justamente seda, num tempo em que nesse país a única coisa nacional que havia, era a água para lavar os pincéis. "Sobre a seda me faço, me desfaço e me refaço" não é apenas uma licença poética. É na verdade a principal razão que eu tenho para pintar...
Acredito que as pessoas que não têm dúvidas sobre o caminho que seguem, são aquelas que conscientemente ou não, estão vivendo de acordo com seus valores, sejam eles quais forem.
Não posso sequer imaginar minha vida, exercendo uma profissão que eu não adorasse, em troca apenas do dito “pão nosso de cada dia”, como infelizmente é o caso da maioria. Reconheço a falta de oportunidades, a injustiça social e isso me dói. Mas a resignação das pessoas a esse sistema capitalista que pode levar à "falência" qualquer ser humano e a desperdiçar talentos que poderiam trazer tanto crescimento pessoal e fazer o mundo tão melhor, me dói muito mais. Alem disso, creio que o que eleva a condição humana, justifica a vida e traz felicidade, não seja o trabalho e sim o Serviço. Lembrando que trabalho é apenas um empenho de quem pretende algo, independente da natureza de seus propósitos e que Serviço é o trabalho de quem deseja fazer uma diferença, contribuir, crescer, aperfeiçoar, transformar, ter justamente, serventia no mundo, ser reconhecido e remunerado proporcionalmente aos seus esforços e a seu comprometimento.
E você, ainda não tem certeza?
Cala o mundo que o coração grita. Ah! Como grita!
Ps: Esse é um espaço de livre pensar, deixe seu comentário, conte sua experiência, discorde, acrescente.

9 comentários:

Rosane Queiroz disse...

Oi ita

cheguei aqui... adorei os links todos, e voce é boa de verbo, hein? acredito que seu post vai ajudar muita gente a se achar

semana que vem vou pra paraty, me aguarde, que dessa vez estarei em slow motion

beijos!

milve disse...

Sua busca, não se perde na razão com que faz suas avaliações e críticas. Encanta a clareza e o dissernimento, como forma magnífica de desvendar o óbvio oculto na mente humana.
Dito por você, acredito endossado por qualquer ser pensante, "somos repletos de valôres, mascarados pelos mitos da educação, crenças ou culturas arcáicas que impedem que os exploremos".
Sempre vai ser prazeroso, viajar pelo seu blog acompanhado de seu dissenimento.
Um grande abraço

Monica Loureiro disse...

Olha, a Rosane está cheia de razão de ter te estimulado a fazer seu Blog...

Vá em frente....Ja estou fazendo propaganda sua no meu Blog também...

http://terapialiteraria-monicaty.blogspot.com/


Monicaty

Fabio Fernandes disse...

Onde já se viu? Analista de sistemas que queria ser médico, mas se encontrou profissionalmente como músico amador.

Tendeu? Nem eu tendi direito isso até hoje. Na verdade eu queria ser psiquatra, sério mesmo. Mas como pagar faculdade particular já é complicado, imagine pagar faculdade de medicina particular?? Aí, como já tinha conhecimento auto-didata na área, fiz sistemas de informação. Só que depois de tudo certo, definido. Fui aprender a tocar bateria.. ae alguns shows com a banda me fizeram gostar daquilo de uma forma indescritível.

Agora, sou analista de sistemas, mas nas horas vagas sou baterista amador profissional.
Um dia, quando(se) fizer sucesso, largo tudo e boto a batera nas costas e o pé na estrada.

Mas enquanto esse dia não chega, tenho q comprar brinquedos pra um mocinho de 6 anos, ração pro Teco, me sustentar e ainda ajudar a minha mãezinha. Esse mundo capitalista é uma merda, usurpador de sonhos alheios..

Bjos Ita,

Calabresa disse...

Eu ando perseguindo esse sonho!
Adoro o que faço. Amo ser Assistente Social. É uma profissão mal remunerada, eu sei disso, mas é isso que quero e que me dá prazer!
Tenho descoberto outras vocações, que também me dão prazer, escrever é uma delas... Tb não dá dinheiro (hehehehe), mas dá prazer!
Grana é consequencia, ela vem quando a gente trabalha bem...
Beijos Itaaaaaa
Depois te escrevo um e-mail.

Pipas disse...

Escrevi sobre isso no meu blog há pouco tempo. Eu larguei tudo no ano passado por querer fazer algo que não era compatível com a vida que eu levava. Fiquei um ano só gastando, sem entrar nada, mas valeu a pena porque encontrei uma coisa que não tem valor: o meu caminho!
Bjo
P.S.: Larguei 8 anos de carreira bem sucedida, em multinacional, 14 hs por dia de trabalho duro, carro, etc. Vou começar de novo!

Marisa Pimenta disse...

Ita q texto lindo! Mas partindo de vc já era certo. Eu tb rompi c tantas coisas nesta vida e saí a procurar algo qme fizesse , realmente feliz.Primeiro me livrei do casamento, c uma filha de apenas 3 anos a mais nova , uma entrando para a faculdade e outra p o terceiro período. Grana quase nada. Mas lutei e fui ser costureira o q já fazia para as amigas de minhas filhas. Comecei p mtas pessoas. Deu certo, mas acabou c minha coluna q já não andava boa. Mudei, fui bordadeira, fiz calçados, bolsas e mto mais. Veio então o teatro e as oficinas para crianças estimulando a leitura. Eu já tinha o projeto "aprendendo a ler com prazer", foi só reciclar e começar, mtos anos na biblioteca infantil. Não era só isso! Comecei a dar curso de contador de história p adultos serem mais criativos. De repente, minha mais nova resolveu ser atriz. Sempre a acompanhava e sabia q podia me meter a far algo c o teatro, fiz curso de direção e, comecei a dar cursos e tb montar peças q foram muitas (veja no meu blog)e era feliz assim. Mas aí a filha formou-se jornalista, desistiu de ser atriz o q foi uma pena, mas foi escolha dela e eu fiquei novamente meio sem rumo. Foi aí q o artesanato tomou conta de mim e comecei a criar e vender e me gratificar com o resultado. Realmente, a grana não faz a diferença e, sim, o q nos torna completos e de quebra nos traz feicidade. Acho q falei demais, mas sei q vc me entende, pois a vida só tem graça se for bem vivida. Gosto da frase do Chacal que diz: "A vida é curta para ser pequena!" nada é mais real. Coloquei esta frase sobre a minha cama, leio sempre e me renovo. Sem contar q no meio da epopéia tive uma brutal depressão orgânica q só o carinho das filhas me recuperou. Hoje, posso dizer q sou imensamente feliz e é isso q conta. "Viver e não ter a vergonha de ser feliz!!!!" é meu lema atual.Obrigada por ter podido dar meu depoimento.Se quiser pode colocar p q outros vejam Bjks no coração

Regina Bui disse...

Oi Ita,
postei um link de uma receita fácil de mocotó. Eu só nao acrescentaria farinha p/ não alterar o sabor e deixaria 50 minutos na pressão, não 35, como o chef sugeriu. No final ele faz outra receita com favas, p/ complementar a cara do prato, mas isso tbém não é necessário. A receita do mocotó é completa, espero que vc consiga.
Bjs

Gis disse...

Ita, Ita, que texto liiiiindo! Nem preciso dizer que me identifiquei,né? Cruzei um oceano a procura de mim mesma e da realização de meus sonhos, alguns deles - principalmente os profissionais - que nem sei exatamente quais são. Tudo o que eu sabia era que precisava estar aqui e aqui estou. Acho que com o tempo vou me encontrar. Beijos lusitando cheios de carinho.